
Assisti O JARDINEIRO FIEL, de Fernando Meirelles. O resumo do filme está logo abaixo. Mas antes, queria comentar algo que não pude evitar: a comparação com o filme CIDADE DE DEUS.
CIDADE DE DEUS foi um marco no cinema nacional. Com uma boa ótica, bom enquadramento. Realismo. O JARDINEIRO FIEL conta também com essas características. E mais, conta também com a riqueza de imagens, elenco e recursos do cinema estrangeiro.
Ambos os filmes nos instigam a revolta.
É repugnante vermos o mundo das drogas destruir e imperar sobre cidadãos, como em CIDADE, mas é ainda mais repugnante ver como o capitalismo pode agir contra os mais pobres.
O fato é que o que ocorre em CIDADE DE DEUS ao meu ver, é injusto, mas é a realidade. Quem lida com o tráfico sabe como é vida real. Ninguém lá é enganado. Já em O JARDINEIRO FIEL, a miséria da Africa é narrada. E lá, a população é ignorante e desconhece, em sua maioria, o que lhes acontece. Vivem cercado de doença, pobreza, intenções ambíguas do governo e dos mais ricos.
Lá poucos tem opção de escolha. Lá, o povo é resignado a sofrer sua condição de pobre, negro e sub-povo. Lá, eles não sabem que são gente e que merecem cuidados.
Acredito que a situação é pior do que a da narrada em CIDADE porque ao menos aqui no Brasil, existe a opção de escolha. Temos uma vasta dificuldade, é verdade. Mas aqui, o cara que entra pro mundo do crime entra sabendo no que vai dar. Sabendo dos riscos que corre. Sabendo que pode morrer. Sabendo que uma vida honesta é muito mais difícil de ser seguida, que empregos são raros, mas que há uma chance.
Na África, o povo é tão castigado que buscam remédios achando que vão ser curados e estão na verdade sendo cobaias para testes farmaceuticos.
Ambas as situações são inadmissíveis. Mas pelo menos nisso, posso dizer que a situação do Brasil é melhor. E viva "Zé pequeno"!

RESUMO:
Um alto funcionário da diplomacia inglesa se envolve com uma militante de causas humanitárias. Ele é um homem discreto, que costuma passar boa parte do tempo livre cuidado do jardim. Já ela é completamente espirituosa, apaixonada pelo que faz e árdua defensora dos mais fracos. Os resultados da união entre Justin (Ralph Fiennes) e Tessa (Rachel Weisz) são casamento, gravidez e mudança para a África.
No novo país ela se envolve em causas humanitárias e trabalha ao lado do médico Arnold Bluhm. A atuação da dupla em comunidades pobres e cheias de pessoas pobres é incômoda para autoridades e empresários da indústria farmacêutica, que testam um novo medicamento na África. Tessa não conta ao marido o que anda fazendo, chega tarde em casa e sempre está acompanhada do amigo de trabalho, o que desperta suspeita em Justin de que os dois têm um caso.
Um dia, enquanto cuidava de suas plantas, Justin recebe do amigo Sandy a notícia de que a mulher foi encontrada morta num local isolado. Ele começa, então, a vasculhar as coisas dela para descobrir quem teria interesse em tirar sua vida. A primeira revelação que tem é o forte indício da infidelidade dela. Mas Justin percebe logo que uma conspiração de médicos, políticos e empresários pode ter relação com a morte da esposa. Ele viaja pela Europa e visita o interior da África numa busca frenética de provas para descobrir quem a matou o que ela fazia de tão misterioso e incomodava tantas pessoas.
Baseado na obra de John Le Carré, O Jardineiro Fiel tem direção do brasileiro Fernando Meirelles, o mesmo de Cidade de Deus. As filmagens ocorreram no Quênia, Inglaterra, Alemanha e Canadá. Nas seqüências em que são mostradas cenas no ponto de vista de Justin, o ator Ralph Fiennes operou a câmera.
PS: Vou seguir a sugestão do Vinicius e vou adotar o nome: "Amora". Mas, Vinícius, meu nome também não é Aurélia... É que eu gosto da heroína de José de Alencar... Leia o meu primeiro post que lá eu explico melhor! Obrigada pela sugestão!
Haicai*
Infância
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".
Guilherme de Almeida

O momento em que eu me sinto mais é eu, é quando volto à infância através do gosto da amora.
Poucas poesias me tocam tanto como essa. Tanto que ao colocar uma amora na boca, me sinto criança, catando amora no pé. Logo me lembro de minha avó gritando:
- Cuidado menina. Olha o barranco. Vai cair lá embaixo.
É que meu pé de amora ficava num terreno torto, que eu costumava chamar de "lá de baixo".
Esse gosto da infância gera também um aperto no peito, uma vontade de voltar. Uma saudade estranha, meio incerta.
Como pode um gosto ficar tão intrínseco a uma época da vida?
Será que eternamente a amora terá gosto de infância? E quando eu vivia na infância, ela tinha gosto do quê?
* Os haikai - usamos o plural porque o singular incorre num cacófaton - são criação do século XVII, de Bashô, que era uma poeta boêmio, de vida inconstante e cheia de altos e baixos. Fez escola. É poesia essencialmente sintética, de dezessete sílabas, muito popular no Japão. A poesia mais popular, porém, é a "tanka", de trinta e uma sílabas. Existem também o "dodoitsu" e o "jintaishi", este o verso livre nosso. De todas estas formas poéticas, a mais interessante porque mais rigorosa, a que mais disciplina exige, é o haikai; em primeiro lugar por ser uma síntese; tem apenas dezessete silabas; e em segundo lugar, pela sua construção forçada em três versos, um de cinco silabas, outro de sete e um último também de cinco. O elemento amor não entra nem pode entrar no haikai. Ele se inspira exclusivamente no aspecto da terra em cada uma dessas fases do ano. Esses "motivos" de estação, quer dizer, a razão de ser poética do haikai, chama-se em japonês "kilai".